A primeira fase da Fuvest 2027, aplicada em 1º de novembro de 2026, passou a ter 80 questões depois de 20 edições consecutivas com 90 itens, de 2007 a 2026. A mudança na quantidade veio acompanhada de uma ênfase renovada na interpretação, em problemas contextualizados e na conexão entre áreas. A interdisciplinaridade, porém, não surgiu em 2027: já era prevista no modelo adotado em 2007 e foi sendo desenvolvida nas edições seguintes. Em Matemática, o efeito foi especialmente visível. Uma das poucas questões identificadas diretamente com a área, a 23 do caderno V1, foi anulada pela Fuvest em 2 de novembro de 2026 por apresentar uma longitude geográfica incompatível com a posição real de Porto de Galinhas, em Pernambuco.

O enunciado trocou 35° Oeste por 35° Leste ao descrever Porto de Galinhas. A coordenada errada contradiz o mapa da prova e modifica o cálculo. A anulação foi confirmada na nota oficial da Fuvest, datada de 2 de novembro de 2026. A própria banca esclareceu que os dados numéricos permitiam uma resposta matemática, mas que a longitude errada, associada a cidades reais e a um mapa, comprometia a coerência interdisciplinar da questão.
A Equipe Waldemática examinou detalhadamente quatro cadernos recentes, de 2024 a 2027, além de consultar o histórico oficial do formato vigente desde 2007 e reunir análises públicas de especialistas. O recorte 2024–2027 serve à comparação das questões, não define o início da mudança histórica. O objetivo é compreender o perfil atual do vestibular sem confundir constatações, classificações editoriais e previsões.
Questão 23 anulada: o que diz a nota oficial da Fuvest?
A nota oficial da Fuvest publicada em 2 de novembro de 2026 encerrou a dúvida sobre a validade da questão 23 da versão V1. A organizadora reconheceu que, considerando apenas os números fornecidos no texto, o problema tinha uma solução matemática. Porém, a prova mencionava cidades reais e apresentava um mapa, e a longitude atribuída a Porto de Galinhas estava incorreta.
A Fuvest declarou que essa inconsistência geográfica era motivo suficiente para anular o item, pois a avaliação exige que o candidato articule corretamente informações de diferentes áreas do conhecimento. A instituição também anunciou que passará a submeter questões interdisciplinares de Matemática à revisão de especialistas das demais áreas envolvidas.
O que muda para o candidato: a questão anulada corresponde à 23 na V1, à 3 na V2, à 66 na V3 e à 45 na V4. Conforme a notícia publicada pelo UOL em 2 de novembro, o ponto será atribuído aos candidatos presentes. A alternativa A, registrada na V1 no gabarito de 1º de novembro, é apenas a resposta do gabarito original, anterior à anulação.
Essa decisão torna a análise especialmente instrutiva: acertar uma conta não basta se os dados geográficos usados para modelar o problema são contraditórios. A resolução detalhada dos dois cenários aparece adiante.
O que mudou na Fuvest 2027: de 90 para 80 questões
A mudança numérica de 2027 encerra um padrão muito mais antigo do que as últimas quatro provas usadas nesta análise. Segundo o Manual da Fuvest 2008, a redução anterior ocorreu no vestibular 2007, quando a primeira fase passou de 100 para 90 questões e já passou a privilegiar a multidisciplinaridade, sem uma divisão rígida por disciplinas.
Entre os vestibulares 2007 e 2026, inclusive, foram 20 edições com 90 questões. O comunicado oficial da Fuvest de 17 de dezembro de 2025 anunciou a nova redução: 80 questões em 2027, mantendo cinco alternativas por item e cinco horas de duração. A justificativa foi permitir maior reflexão sobre perguntas que conectam conhecimentos de diferentes áreas.
| Modelo da 1ª fase | Quantidade de questões | Leitura histórica |
|---|---|---|
| Vestibulares 2003–2006 | 100 | Formato imediatamente anterior à redução para 90, registrado nos manuais históricos da Fuvest. |
| Vestibulares 2007–2026 | 90 | Padrão mantido por 20 edições; o projeto de multidisciplinaridade já estava presente em sua implantação. |
| Vestibular 2027 | 80 | Nova redução do total de itens, com cinco horas de prova e maior espaço previsto para leitura e articulação entre áreas. |
Os cadernos de 2024, 2025 e 2026, todos com 90 questões, são usados adiante para uma comparação pedagógica recente dos conteúdos matemáticos, não para sugerir que esse formato tenha começado em 2024.
Outro ponto essencial: a mudança para 80 questões não pode ser apresentada como o nascimento das questões contextualizadas. O Relatório Anual 2024 da Fuvest já descrevia a ampliação das conexões entre disciplinas no programa do Vestibular 2026. Assim, o novo caderno de 2027 deve ser compreendido como uma etapa de uma evolução pedagógica anterior, somada à mudança formal no número de itens.

Com cinco horas para 90 itens, a média teórica era de 3 minutos e 20 segundos por questão. Com 80 itens, passou a 3 minutos e 45 segundos. São 25 segundos adicionais por item, caso o tempo fosse distribuído uniformemente. Isso não significa que o candidato efetivamente ganhou tempo livre: um texto mais extenso ou um problema mais elaborado pode consumir toda essa diferença.
O diretor-executivo da Fuvest, Gustavo Monaco, explicou em análise publicada pela Folha de S.Paulo que a organização pediu questões mais exigentes justamente para manter a capacidade de diferenciar desempenhos após a redução do total de perguntas. Portanto, menos questões não é sinônimo de prova mais fácil.
Quantas questões de Matemática caíram na Fuvest 2027?
Aqui é indispensável definir o critério. Em balanço divulgado na Folha, com avaliação do Curso Anglo, a Matemática aparece com sete itens, ante 12 na classificação comparativa mencionada pelos especialistas. Já uma classificação independente por disciplina relaciona seis questões com predominância matemática: 23, 31, 32, 34, 59 e 67, todas pela numeração da prova V1.
A diferença tem explicação metodológica plausível: a questão 35, sobre um circuito elétrico, pode ser tratada como Física ou como item interdisciplinar de Matemática e Física. O Curso Anglo a identificou justamente nessa interface. Não existe, nesses levantamentos, uma contagem única que dispense a explicação do critério.
Os seis itens de predominância matemática identificados diretamente no caderno V1 são:
| Questão V1 | Situação do enunciado | Matemática exigida |
|---|---|---|
| 23 | Distância entre Porto de Galinhas e Luanda sobre um paralelo terrestre | Trigonometria, circunferência, conversão angular e coordenadas geográficas |
| 31 | Correção da inclinação de um telhado para impedir infiltrações | Porcentagem, inclinação, tangente e geometria do triângulo retângulo |
| 32 | Pontuação de rodadas de um campeonato de cartas | Progressão geométrica e representação de números como soma de potências de 3 |
| 34 | Propriedades de uma função envolvendo expressões exponenciais | Funções, exponenciais, paridade e análise algébrica |
| 59 | Aranha que detecta sinais em uma teia com oito posições | Combinatória e contagem com restrições de oposição |
| 67 | Duas casas de um tabuleiro triangular e suas transformações | Geometria plana, rotação, simetria e visualização espacial |
O quadro mostra algo importante: nem as questões consideradas de Matemática são necessariamente “Matemática pura” no sentido de enunciados abstratos. As 23, 31, 32 e 59, por exemplo, partem de cenários geográficos ou cotidianos. Na 34, o enunciado é mais formal. A 67 exige compreensão geométrica e visual.
A diferença entre questão matemática, questão contextualizada e questão interdisciplinar
Uma questão de Matemática contextualizada parte de uma situação, mas seu objetivo principal continua sendo resolver um problema matemático. É o caso do telhado da questão 31: a construção civil é o cenário; a ferramenta decisiva é a tangente de um ângulo.
Uma questão interdisciplinar exige uma conexão mais efetiva entre conteúdos, ou pode ser legitimamente classificada por áreas diferentes. Na questão 23, a trigonometria depende de dados geográficos. Na 35, o raciocínio quantitativo aparece em um circuito elétrico.
Por fim, um item pode mencionar Matemática sem avaliar propriamente uma habilidade matemática. A questão 68, na parte de Inglês, apresenta um texto sobre padrões de pétalas em cerâmicas antigas, com a sequência 4, 8, 16, 32, 64. Entretanto, a pergunta avalia a interpretação da expressão inglesa geometric sequence, e não pede para calcular termos de uma progressão. Essa distinção evita inflar artificialmente o número de questões de Matemática.
A Matemática ficou diluída nas outras disciplinas?
Parcialmente, sim, mas com uma ressalva importante. Uma leitura do caderno V1 revela várias situações que exigem cálculo, raciocínio proporcional, análise de grandezas ou interpretação gráfica fora do conjunto de itens de Matemática predominante. Isso confirma uma presença transversal da linguagem matemática. Porém, nem todo cálculo de Física ou Química deve ser somado ao total de questões de Matemática.
Na questão 35, por exemplo, o circuito elétrico é apresentado com duas experiências e diferentes valores de tensão. O candidato precisa reconhecer relações entre grandezas e trabalhar com uma estrutura matemática de dependências lineares.
A questão 37 pede uma comparação econômica entre um carro elétrico e um carro a gasolina. O problema envolve potência elétrica, consumo energético, distância mensal, custos de operação e horizonte de cinco anos. Além de Física, há proporcionalidade, conversão de unidades e comparação de valores acumulados. Um candidato que apenas memorize a expressão da potência pode não conseguir organizar a decisão financeira.
A questão 39, em Química, combina consumo por rotação do motor, quantidades em mol e volume de combustível. Já a questão 73, em Física, exige quantificar a velocidade de um skatista usando informações energéticas, e a 75 trabalha balanço térmico e relações de massa, temperatura e energia. Em todos esses casos, a modelagem numérica é importante, mas o domínio disciplinar principal não desaparece.
Também existem questões de interpretação quantitativa que não pedem uma operação matemática longa, como a questão 30, que usa um perfil de precipitação e relevo para avaliar dinâmica geográfica, e a 54, que compara estimativas científicas da constante de Hubble e suas incertezas.

A conclusão não deve ser “a Matemática saiu da prova”. O que os cadernos sugerem é mais interessante: a prova de 2027 reservou menos espaço para Matemática como disciplina predominante, mas continuou cobrando competências quantitativas em problemas de outros campos. Trata-se de uma interpretação sustentada pelos exemplos do exame, não de uma contagem oficial de habilidades transversais.
Comparação com as provas de 2024, 2025 e 2026
Fuvest 2024: aplicações conviviam com problemas formais
O caderno Z da Fuvest 2024, enviado à Equipe Waldemática, mostra uma banca que já transitava entre raciocínio formal e contextos concretos. A questão 2 utiliza uma árvore pitagórica para trabalhar uma construção geométrica iterativa e uma desigualdade com potências e logaritmos. A 38 explora uma função exponencial e sua inversa; a 39 pede a representação gráfica de um sistema linear.
No mesmo caderno, a 46 aborda média, mediana, moda e amplitude, a 56 utiliza matrizes para representar relações em uma rede social, e a 81 relaciona números figurados a uma sequência. As 35 e 47 levam a Matemática para contextos de construção e transporte. Ou seja, contextualização não nasceu na Fuvest 2027: já fazia parte da seleção, embora com distribuição e características diferentes.
Fuvest 2025: mobilidade, escalas, médias e geometria
Na Fuvest 2025 (V1), a questão 16 examina uma rampa de acessibilidade, integrando inclinação, razão e desenho geométrico. A 17 trabalha a leitura de um cruzamento urbano, e a 25 envolve escalas de mapas. A 24 também cita ruas de São Paulo, mas cobra um conceito de Química, e por isso não deve ser contabilizada como questão matemática apenas por seu contexto urbano.
Mais adiante, a 45 recorre a média aritmética para interpretar expectativa de vida; as 69 e 70 exploram, respectivamente, gráfico de função com módulo e progressão aritmética; as 75 a 77 abordam geometria de sólidos e geometria analítica. Há, portanto, questões algébricas mais diretas e outras ancoradas em problemas concretos. A mudança de 2027 precisa ser entendida como uma reorganização da presença da Matemática, e não como substituição de um passado totalmente abstrato por um presente contextualizado.
Fuvest 2026: interdisciplinaridade já estava em evidência
A prova 2026 (V1), disponível no acervo oficial da Fuvest, já traz exemplos expressivos: a questão 4 usa a entropia de Shannon e logaritmos; a 6 apresenta geometria espacial numa réplica de pirâmide visitada em atividade de Geografia; a 7 cobra análise de uma solução trigonométrica; a 18 envolve funções exponenciais e logarítmicas; e a 74 trata de transformações de gráficos. Também aparecem questões de circunferência, sequências e volumes.
Um episódio de 2026 merece registro porque ajuda a entender o debate atual. A questão 3 da prova V1 de 2026, sobre uma eleição fictícia para um conselho, foi anulada oficialmente após contestação. A discussão girava em torno da impossibilidade de garantir a alternativa inicialmente indicada. A Folha documentou a decisão da banca, e a prova teve gabarito retificado.
Esse precedente ajuda a contextualizar o que ocorreu agora, em 2027, mas as falhas técnicas eram distintas: em 2026, a controvérsia dizia respeito à lógica das alternativas; em 2027, houve uma contradição entre os dados geográficos do enunciado e a localização real da cidade, que resultou na anulação.
O que os quatro cadernos recentes revelam
A comparação de 2024, 2025, 2026 e 2027 é uma amostra recente de como a Matemática vem sendo cobrada, não uma história completa da Fuvest. Ela mostra que problemas formais e contextualizados já coexistiam em 2024 e 2025, que o programa de 2026 deu destaque institucional à integração de saberes e que, em 2027, essa orientação conviveu com um novo total de 80 questões. O marco quantitativo anterior, entretanto, ocorreu em 2007, com a adoção das 90 questões.
Como as diferentes análises educacionais classificam questões híbridas de maneiras distintas, não seria rigoroso publicar uma série de números de Matemática por ano sem uma classificação padronizada, item por item. Por essa razão, aqui destacamos exemplos conferidos diretamente nos quatro cadernos e apresentamos a contagem de 2027 com seu critério explícito.
Gabarito oficial da Fuvest 2027: prova V1, com atualização da questão 23
A Fuvest publicou em 1º de novembro o gabarito oficial inicial, incluindo as versões V1, V2, V3 e V4 e a correspondência entre elas. Na prova V1, a questão 23 aparecia inicialmente com alternativa A. Em 2 de novembro, a nota oficial da Fuvest confirmou a anulação da questão. A tabela abaixo preserva as demais respostas da versão V1 e assinala a atualização do item 23.
Atenção: esta tabela combina o gabarito oficial originalmente publicado em 1º/11 com a anulação confirmada na nota oficial de 2/11. Não se trata de reprodução de um gabarito retificado, cuja versão final ainda precisa ser conferida diretamente no site da Fuvest.
| Questão | Resposta | Questão | Resposta |
|---|---|---|---|
| 01 | E | 41 | C |
| 02 | A | 42 | C |
| 03 | D | 43 | E |
| 04 | C | 44 | A |
| 05 | C | 45 | A |
| 06 | E | 46 | C |
| 07 | E | 47 | B |
| 08 | D | 48 | D |
| 09 | E | 49 | B |
| 10 | E | 50 | A |
| 11 | B | 51 | A |
| 12 | C | 52 | C |
| 13 | D | 53 | E |
| 14 | A | 54 | C |
| 15 | C | 55 | B |
| 16 | B | 56 | B |
| 17 | B | 57 | C |
| 18 | B | 58 | D |
| 19 | A | 59 | A |
| 20 | C | 60 | A |
| 21 | A | 61 | C |
| 22 | E | 62 | C |
| 23 | ANULADA* | 63 | A |
| 24 | A | 64 | B |
| 25 | C | 65 | A |
| 26 | E | 66 | A |
| 27 | A | 67 | A |
| 28 | C | 68 | B |
| 29 | E | 69 | D |
| 30 | E | 70 | A |
| 31 | C | 71 | A |
| 32 | C | 72 | D |
| 33 | A | 73 | D |
| 34 | B | 74 | B |
| 35 | A | 75 | C |
| 36 | B | 76 | E |
| 37 | A | 77 | A |
| 38 | B | 78 | C |
| 39 | B | 79 | D |
| 40 | C | 80 | A |
- ANULADA*: a questão 23 da V1 (originalmente alternativa A) foi anulada, conforme nota oficial da Fuvest. O item corresponde às questões 3 na V2, 66 na V3 e 45 na V4. Segundo o UOL, o ponto será atribuído aos candidatos presentes.
- Outras versões: consulte o PDF oficial da Fuvest e confira a identificação V1, V2, V3 ou V4 na capa do seu caderno. A publicação de eventual gabarito retificado deve ser acompanhada diretamente no site da organizadora.
Questão 23 da Fuvest 2027: o erro que levou à anulação
Na página 10 do caderno V1, a questão 23 pede uma estimativa da distância percorrida por um navio entre Porto de Galinhas, em Pernambuco, e Luanda, capital de Angola, sobre o paralelo de latitude 9° Sul, admitindo a Terra perfeitamente esférica e circunferência equatorial próxima de 40 mil quilômetros.
O texto identifica Luanda aproximadamente em 13° de longitude Leste, o que é coerente com sua posição. Mas atribui a Porto de Galinhas 35° de longitude Leste, apesar de essa localidade brasileira estar aproximadamente a 35° Oeste. O mapa que acompanha a própria pergunta coloca Porto de Galinhas corretamente a oeste de Greenwich e Luanda a leste.
Esse é o núcleo do erro reconhecido: o dado escrito não corresponde ao lugar que o enunciado nomeia e representa no mapa. Não se trata de mero arredondamento de longitude, mas de uma troca de hemisfério que altera a separação angular. A Fuvest considerou a inconsistência suficiente para anular a questão, como consta na sua nota oficial de 2/11/2026.
O que disseram professores e cursinhos
Em reportagem publicada pela CNN Brasil em 1º de novembro, a coordenadora pedagógica do Objetivo, Vera Lúcia Antunes, apontou a longitude incorreta. Ela ressaltou, contudo, que há uma alternativa quando se calcula usando os dados numéricos do próprio texto e se desconsidera o erro geográfico.
Os professores Rodrigo Serra, de Matemática, e Daniel Simões, de Geografia e Atualidades, do Colégio Oficina do Estudante, avaliaram em entrevista à Revista Quero que, ao corrigir a longitude para Oeste, nenhuma das alternativas apresentadas corresponde à distância obtida.
Há, porém, uma avaliação distinta. O professor de Física Mateus Pinheiro, ouvido em análise da Folha de S.Paulo, considera que o exercício possui coerência interna se o candidato seguir as coordenadas escritas e, por isso, a Fuvest deve julgar se o erro compromete a validade do item.
A existência dessa divergência torna inadequado afirmar que “todos os especialistas pedem anulação”. Há concordância sobre a coordenada geográfica; a discordância está na consequência avaliativa desse erro.
Resolução matemática da questão 23: por que os resultados mudam?
A questão permite demonstrar o problema sem depender de opiniões. Para uma Terra esférica, o comprimento de um paralelo de latitude φ é aproximadamente a circunferência equatorial multiplicada por cos φ. O arco entre duas longitudes, com separação angular Δλ, corresponde à fração Δλ/360° do paralelo.
Assim, para a latitude 9° Sul:
d ≈ 40.000 × (Δλ/360) × cos(9°)
Aqui, d está em quilômetros, e Δλ é a separação angular em graus. O sinal da latitude não muda o resultado porque cos(−9°) = cos(9°).
O enunciado fornece uma aproximação para cossenos de pequenos ângulos em radianos. Como 9° = π/20 e π² ≈ 10:
cos(9°) ≈ 1 − (π/20)²/2 = 1 − π²/800 ≈ 1 − 10/800 = 0,9875.
Cenário 1: usar literalmente as longitudes impressas
Se Porto de Galinhas estivesse em 35° Leste e Luanda em 13° Leste, os dois pontos estariam no mesmo hemisfério longitudinal, separados por:
Δλ = 35° − 13° = 22°.
A distância seria:
d ≈ 40.000 × (22/360) × 0,9875 ≈ 2.414 km.
Arredondando, 2,4 mil quilômetros, que corresponde à alternativa A do gabarito originalmente divulgado em 1º de novembro, antes da anulação anunciada em 2 de novembro.
Cenário 2: usar a localização real de Porto de Galinhas
Se Porto de Galinhas está em aproximadamente 35° Oeste e Luanda em 13° Leste, os pontos ficam em lados opostos do meridiano de Greenwich. A separação angular passa a ser:
Δλ = 35° + 13° = 48°.
A nova estimativa é:
d ≈ 40.000 × (48/360) × 0,9875 ≈ 5.267 km.
Arredondando, 5,3 mil quilômetros. As alternativas do caderno V1 são, em milhares de quilômetros, 2,4; 2,0; 1,5; 3,0; 2,7. Nenhuma delas contempla a estimativa geograficamente correta.


Observe que não estamos recalculando a distância real de uma rota marítima de navegação, com correntes, portos e trajetórias efetivas. Estamos usando o modelo idealizado pedido pela prova: deslocamento ao longo do paralelo 9° Sul numa esfera. Dentro desse modelo, o erro da coordenada já é suficiente para produzir a divergência.
Por que a Fuvest decidiu anular a questão?
Antes da decisão, dois argumentos estavam em debate entre professores e cursinhos:
Argumento favorável à anulação: a questão nomeia cidades reais, fornece um mapa coerente com o mundo real e indica uma longitude incompatível com a cidade brasileira. Um estudante que saiba Geografia e interprete corretamente o mapa encontrará cerca de 5,3 mil quilômetros, valor ausente nas alternativas. Como a Fuvest afirma valorizar interdisciplinaridade, penalizar essa leitura correta seria problemático.
Argumento favorável à manutenção: em questões matemáticas idealizadas, os dados expressos podem funcionar como premissas operacionais; tomando literalmente os números dados, o exercício produz resultado único, aproximadamente 2,4 mil quilômetros, coincidente com o gabarito inicial. A banca pode considerar que a inconsistência factual não inviabilizou o procedimento solicitado.
A decisão da Fuvest foi pela anulação. A nota oficial de 2 de novembro distingue claramente a correção do cálculo com números abstratos da necessidade de coerência geográfica em uma questão contextualizada. O comunicado informa ainda que a Fuvest ampliará a revisão interdisciplinar das questões de Matemática. Sobre a pontuação, o UOL informou que o ponto será concedido aos candidatos presentes.
Para aprofundar a preparação, veja as playlists Imersão Fuvest e Resoluções da 1ª fase. Um vídeo sobre a questão 23 poderá ser incorporado depois de conferido, sem substituir esta análise.
O que acontece se uma questão da Fuvest for anulada?
A Resolução CoG nº 9008/2026, que rege o Vestibular 2027, prevê a análise de objeções fundamentadas encaminhadas dentro do prazo estabelecido e determina que, se houver anulação, o valor do item seja atribuído a todos os candidatos presentes à prova correspondente.
A Fuvest anunciou a anulação em 2 de novembro de 2026. A nota oficial confirma a anulação; conforme a reportagem do UOL, o ponto será concedido a todos os candidatos presentes e o gabarito publicado em 1º de novembro será retificado. Até que o PDF retificado esteja disponível, o documento inicial deve ser identificado como gabarito originalmente publicado, não como o resultado final.
A anulação de uma questão pode alterar a pontuação de candidatos que erraram ou deixaram o item em branco; para quem já havia marcado a alternativa considerada correta, não representa necessariamente um acréscimo líquido de um ponto. O impacto na classificação depende das regras e do desempenho de todos os concorrentes.
Como professores e estudantes avaliaram a nova prova?
As impressões publicadas não foram uniformes. Gustavo Monaco, diretor-executivo da Fuvest, relatou à Folha a intenção de elevar a complexidade após reduzir o número de itens. Pedro Costa, professor de Matemática do grupo Farias Brito, descreveu um exame em que encontrar rapidamente a ideia correta de resolução ganhou importância. Tom Dantas, de Português e Literatura, destacou a intertextualidade e as conexões entre linguagens e campos do conhecimento.
A análise do Curso Anglo, relatada pela Folha, estimou cerca de 22 questões interdisciplinares (28%) e elementos visuais em aproximadamente 41% dos itens. São classificações da equipe, e não uma distribuição obrigatória do edital.
O professor Rodrigo Serra, do Oficina do Estudante, chamou atenção para a dificuldade da questão 67, que exige interpretar um tabuleiro triangular e transformações geométricas; já professores do Curso Anglo apontaram a questão 35, de interface Matemática/Física, entre as mais exigentes, ao lado da 67. Fontes: Revista Quero, análise da Matemática e questões mais difíceis segundo o Anglo.
Do lado dos candidatos, a estudante Maria Eloísa Zupane, de 17 anos, entrevistada em Ribeirão Preto para reportagem reproduzida pelo Diário de Comunicação, descreveu poucas questões de Matemática, com maior peso de lógica do que de contas, e considerou o volume de leitura o aspecto mais cansativo. É um relato individual, útil para ilustrar a experiência, não uma pesquisa representativa de todos os vestibulandos.
As percepções aparentemente divergentes fazem sentido: uma prova pode apresentar menos cálculos extensos, mas exigir mais leitura, interpretação e decisões rápidas. O grau de dificuldade também varia conforme a preparação e a afinidade do estudante com cada área.
O que muda na preparação de Matemática para as próximas Fuvests?
A principal consequência pedagógica é clara: resolver apenas exercícios organizados por fórmula será insuficiente. Isso não elimina a necessidade de dominar funções, trigonometria, geometria, combinatória e progressões. Ao contrário: quando a aplicação aparece em outra disciplina, a base conceitual precisa estar tão segura que o aluno consiga reconhecê-la no contexto.
Para estudar de forma mais eficiente, uma estratégia é alternar problemas formais, como a análise de funções, com itens contextualizados, como o telhado da questão 31, e problemas interdisciplinares, como o cálculo das longitudes na questão 23. Após cada resolução, vale responder: qual foi a ideia matemática central? Quais dados eram úteis? O que veio de outra disciplina? A resposta é compatível com a situação descrita?
A anulação da questão 23 oferece uma lição valiosa: verificar o significado e a plausibilidade dos dados faz parte de resolver problemas matemáticos bem, sobretudo quando a banca pede conexão entre conteúdos.
Para praticar, o estudante pode consultar a Imersão Fuvest do Waldemática e a revisão de Matemática para a Fuvest 2027. Há também cursos gratuitos de Matemática e, para quem busca uma preparação mais estruturada, o Extensivo Waldemática. Esses materiais são complementares à análise do caderno oficial, não substitutos da leitura da prova.
Perguntas frequentes
Quantas questões teve a primeira fase da Fuvest 2027?
80 questões de múltipla escolha, com cinco alternativas cada e duração de cinco horas. Até a edição 2026 eram 90.
Quantas questões de Matemática caíram na Fuvest 2027?
O Curso Anglo apontou sete, enquanto uma listagem de predominância disciplinar identifica seis (V1: 23, 31, 32, 34, 59 e 67). O sétimo item pode ser identificado na interface com Física, especialmente a questão 35. A diferença depende do critério de classificação.
A questão 23 da Fuvest 2027 foi anulada?
Sim. A Fuvest anunciou em 2 de novembro de 2026 a anulação da questão 23 (V1), correspondente às questões 3 (V2), 66 (V3) e 45 (V4). O gabarito original trazia a alternativa A na V1, mas esse registro foi superado pela decisão de anulação. Fonte: nota oficial da Fuvest, 02/11/2026.
Qual é o erro da questão 23?
O enunciado posicionou Porto de Galinhas a 35° Leste, quando sua longitude aproximada é 35° Oeste. Com o dado escrito, obtém-se aproximadamente 2,4 mil km; com a posição geográfica correta, aproximadamente 5,3 mil km, resposta ausente entre as alternativas.
A Fuvest 2027 ficou mais parecida com o Enem?
A prova ampliou a presença de problemas contextualizados e conexões entre conteúdos, características também comuns ao Enem. Entretanto, continua sendo um exame próprio, com especificidades de raciocínio, seleção de conteúdos e segunda fase discursiva. Portanto, não é correto concluir que as duas provas se tornaram equivalentes.
Conclusão: menos questões isoladas, mais atenção ao raciocínio
A Fuvest 2027 manteve o padrão de exigência associado ao vestibular da USP, mas mudou o desenho quantitativo da primeira fase após duas décadas de provas com 90 itens. Com 80 questões e cinco horas de duração, oferece mais tempo médio por item. Contextos, gráficos, textos e articulação entre disciplinas já integravam a prova e ganharam novas ênfases; não começaram nesta edição.
Na Matemática, a discussão não se resume a uma contagem. Na classificação dos cursinhos consultados, há menos itens predominantemente matemáticos em 2027, mas os critérios de classificação variam e o caderno também traz situações interdisciplinares que exigem competência quantitativa. Isso não autoriza afirmar que a Matemática tenha desaparecido da prova. O debate sobre a questão 23 é emblemático: um problema de trigonometria dependeu da interpretação correta de coordenadas geográficas e revelou como a precisão dos dados importa tanto quanto a técnica de cálculo.
A anulação da questão 23 foi oficializada em 2 de novembro de 2026. A banca reconheceu que havia um resultado matemático consistente com a coordenada impressa, mas considerou que o equívoco geográfico invalidava a pergunta no contexto de uma prova interdisciplinar. O episódio demonstra que o vestibulando não pode ser penalizado por interpretar corretamente informações de diferentes áreas do conhecimento. Fonte: nota oficial da Fuvest.
Fontes e metodologia de apuração
Documentos primários:
- Gabarito oficial originalmente publicado pela Fuvest em 1º/11/2026 (V1–V4); o documento ainda indica A para a questão 23/V1.
- Nota oficial da Fuvest, 02/11/2026: decisão e fundamentação da anulação da questão 23.
- UOL, 02/11/2026: correspondência da questão nas versões V1–V4, ponto aos candidatos e anúncio de retificação do gabarito.
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Fuvest 2027, Prova V1, caderno de 32 páginas anexado à apuração; especialmente questões 23 (p. 10), 31 (p. 13), 32, 34 e 35 (p. 14), 37 (p. 15), 59 (p. 24) e 67 (p. 26). Conferência direta do texto e do mapa da questão 23.
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Fuvest 2026, Prova V1 oficial, disponibilizada no acervo oficial.
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Fuvest 2025, Prova V1 oficial, também fornecida pelo Wal.
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Fuvest 2024, Prova Z, caderno fornecido pelo Wal.
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Fuvest: anúncio das mudanças de 2027 e 2028 (17/12/2025). Referências históricas adicionais: Manual da Fuvest 2008, mensagem da reitora, p. 1: redução de 100 para 90 questões no vestibular 2007; Manual da Fuvest 2007: primeira fase com 90 questões; Relatório Anual 2024 da Fuvest: alterações de programa previstas para o vestibular 2026.
Entrevistas, análises e contrapontos: 7. CNN Brasil (01/11/2026): Vera Lúcia Antunes aponta erro de longitude. 8. Revista Quero (01/11/2026): Rodrigo Serra e Daniel Simões, do Oficina do Estudante. 9. Folha (01/11/2026): análise com professores do Farias Brito, Fuvest e contraponto de Mateus Pinheiro. 10. Folha (01/11/2026): análise do Anglo, interdisciplinaridade e sete itens de Matemática. 11. Revista Quero (01/11/2026): questões mais difíceis segundo o Curso Anglo. 12. Relato de candidata em Ribeirão Preto, reportagem reproduzida pelo Diário de Comunicação (01/11/2026). 13. Folha (25/11/2025): anulação de questão de Matemática da Fuvest 2026. 14. Classificação alternativa por predominância de disciplina: SPES. Não é classificação oficial; usada apenas para explicitar divergência de critérios.
Limite interpretativo: a identificação de “Matemática pura”, “Matemática contextualizada” ou “Matemática transversal” depende do critério de classificação. As provas oficiais sustentam os exemplos apresentados; o total de sete segue a classificação do Anglo, e o total de seis está associado ao inventário por predominância. Não se somaram todos os exercícios numéricos de outras disciplinas como se fossem questões de Matemática.
